Amazônia é do Brasil ou é brasil? Amazônia terra de exploração? Pensamos que querem que sim. Ou melhor, que é assim, e sendo assim, do Brasil. Os planos de desenvolvimento são claros: a Amazônia como fronteira tropical fornecedora de matérias-primas para a região moderna do país. Somos colonizados, mas somos os revoltosos*. Como diria um de nós: fomos catequizados e traídos. Agora somos os traídores. Desertores na linha de fuga do vôo da bruxa, a partir da micro realidade individual-coletiva de Belém.

Hidroelétricas, madeira, gado, soja. Exportação para fora ou para dentro, que no nosso ponto de vista também é fora. A relação metrópole colônia continua sendo reproduzida interna e externamente, regida pela balança econômica especulativa, pautada na histeria do superávit, que torna a realidade a sua própria ficção. Tentamos nesta cartografia um desvelamento, e se, com isso criamos uma outra ficção, ao menos criamos o embate, um contra discurso a hegemônica construção identitária imposta pelos meios de massa. O olho que tudo vê só enxerga o que quer, e a boca amplificada só reverbera o que lhe é interessante.Quando o corpo que geme não é o corpo que sente, inviabiliza-se uma autobiografia possível para a imposição de uma biografia cega, falseada, distorcida e tendenciosa... e seguem-se as devastações e as matanças.
Com uma péssima receita de bolo, que começa desde os portugueses, passando pelos milicos e seus planos de desenvolvimento egoícos e megalomaníacos. Seja com o Radam que contribuiu muito mais para a escolha das melhores terras es suas tomada, legal ou ilegalmente, seja nas diversas hidroelétricas a serviço das multinacionais mineradoras. E é esse o plano de desenvolvimento para a Amazônia? Isso é o melhor para o Brasil? É melhor também pra Amazônia? Pensamos que não. Tais planejamentos são ora abstratos ora irresponsáveis. Os resíduos coletados denotam a história as avessas, avessa porque de dentro. Amazônidas falando do seu lugar, sobre o seu lugar, do micro-coletivo ao macrocosmo amazônida. Somos um bando e o mapa é o nosso manifesto!

O progresso aqui não traz progresso, nem soluções. Traz doenças, mortes, conflitos de terra, desmatamento, inchaço populacional, alargamento dos bolsões de miséria, impunidade e pouco lucro. Pouco porque para poucos. As cifras são impressionantes, mas em que bolsos estão? Estamos sendo engolidos, estuprados, saqueados e ignorados! São motivos suficientes para o levante.
O mapazônia é antes de tudo uma materialização poética ou, para melhor dizer, poe(lí)tica, pois o discurso contido na forma não é alienígena a realidade de seus autores, pelo contrário, a realidade amazônica é nosso motivo, e no seus tentáculos orbitamos. Um mapa tenta descrever-narrar um espaço, espaço afetivo, físico, psicológico, visível e invisível. Propomos aqui uma narrativa cartográfica entrecortada de resíduos históricos, perspectivas políticas e processos poéticos para tentar abarcar as consequências estruturais, físicas e sociais de uma região desde sempre a serviço do mercado, um lugar preso ao mercantilismo colonial, escondido por de traz do discurso positivista do progresso.

Como “todo”, tecemos uma macrovisão política da região confrontando os símbolos catastróficos do desenvolvimentismo com as formas de resistência nativas. Falamos o que a mídia de massa não fala. Contestamos a identidade a nós atribuída. O Mapazônia é um relato denúncia! O faz tanto na pesquisa histórica que materializa na linha do tempo as diversas etapas dessa construção progressista destruidora, quanto na dimensão imagética-gráfica, deflagrando os diversos pontos de tensão entre o colonizador e o colonizado, entre a busca da modernidade ocidental, onde todo o mundo é matéria-prima a ser explorada, e a cultura dos povos da floresta, de integração e harmonia com a natureza.
Na leitura do mapa, as empreiteiras, as mineradoras, os pólos madeireiros, as áreas de grilagem, e todas os sintomas do câncer que é para nós esse tal progresso. Planos de energia, planos de desenvolvimento x resistências humanas, graficamente ilustradas, em uma superfície sem sentido fixo, onde se pode entrar e sair por qualquer ponto, acompanhando a geopolítica caótica de um espaço de luta, e é justamente desse lugar de resistência que surge esse trabalho como contra-golpe aos maioranas e aos barbalhos, a Vale e seus empresários, Alcoa, Albras, Icomi, Orsa, Cargill, Eletronorte e seus políticos comprados, a morte de Chico Mendes e o massacre em Eldorado. Há pedaços da história que não podem ser apagados, o relato, a denúncia, o resgate são nossas trincheiras poelíticas.

Eis uma outra história possível da amazônia hoje, a quem interessar possa...
Texto: Hugo nascimento, Luah Sampaio
+ Info: http://hacklab.comumlab.org
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